O desgaste mental de assistentes sociais nas relações de trabalho

Quinto Encontro Comemorativo em homenagem ao dia do assistente social tratou de tema necessário para a reflexão dos profissionais do Serviço social

Quem é assistente social está acostumado a participar de seminários e debates nos quais a temática aborda quanto a exploração do trabalho no sistema capitalista afeta a saúde do trabalhador, especialmente o quanto o desgaste mental tem sido cada vez mais comum na contemporaneidade. É da natureza do Serviço Social a preocupação com a justiça social e os direitos dos trabalhadores. Mas, e o assistente social, como a exploração da sua força de trabalho se insere neste debate? E o desgaste mental do próprio profissional do Serviço Social?

Foi pensando nestas questões que a equipe da Vara Central de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher de São Paulo escolheu o tema “Desgaste mental de assistentes sociais nas relações de trabalho” para o 5° Encontro Comemorativo em Homenagem ao Dia do Assistente Social, realizado no último dia 4, no Fórum Criminal da Barra Funda, na capital paulista. A escolha foi acertada: Mais de mil pessoas interessaram-se pelo evento.

Para falar sobre a questão foi convidada a assistente social e professora Damares Pereira Vicente. Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Trabalho e Profissão da PUC-SP e do Grupo de Estudos de Saúde Mental Relacionada ao Trabalho e Direitos Humanos do Instituto Sedes Sapientiae, Damares realizou a pesquisa qualitativa “O trabalho dos assistentes sociais na área de habitação de interesse social: entre o direito à moradia e os interesses do capital”, com assistentes sociais que trabalham na Secretaria Municipal de Habitação.

“São cada vez mais frequentes os relatos de assistentes sociais, em várias áreas sobre a relação entre condições de trabalho e sofrimento que resultam em licenças, transferências e afastamentos por violência, assédio organizacional, demissões em massa, intensificação do ritmo de trabalho, excesso de responsabilização e desqualificação do trabalho”, expôs. “O número de inscritos para esta palestra indica que este tema precisa ser tratado”, completou. Para a professora, o assistente social fala sobre as outras categorias, mas não fala da sua própria e isso é um sinal de que há alguma coisa errada.

A professora explicou que neste sistema de exploração capitalista o trabalhador está sempre em desvantagem, pois as condições de trabalho são sempre desfavoráveis. E neste ciclo “nós sofremos e fazemos sofrer e vamos embrutecendo, como forma de defesa contra o desgaste”, disse. Para ela, não se discute mais o trabalho e suas relações e as pessoas vão ficando cada vez mais isoladas.

E no Serviço Social não é diferente. A pesquisa constatou que o confronto cotidiano com a precariedade das condições de vida da população já é em si um sofrimento para os profissionais. Soma-se a isso a violência institucional e a falta de condições de trabalho. Existe uma divisão do trabalho e de prestígio na categoria entre os profissionais concursados estatutários, os concursados, mas contratados pelo regime da CLT, os terceirizados e até mesmo quarteirizados. Os trabalhadores de “primeira” categoria, considerados pelo senso comum como detentores de mais conhecimento, trabalham em condições menos precarizadas e os contratados pelas gerenciadoras são considerados de “segunda” categoria. A pesquisa também mostrou que o cotidiano é marcado por violações de direitos, humilhações e constrangimentos. Entre as dificuldades apontadas pelos profissionais estão: falta de local apropriado para refeições; desrespeito aos horários de alimentação; ausência ou inadequação de banheiros nos canteiros de obras; escassez de material básico, como telefones e computadores; a ausência de locais adequados para atendimento; apedrejamento dos locais de atendimento por moradores descontentes e o convívio com ações desencadeadas pelo tráfico de drogas.

Outro sintoma presente na pesquisa e que segue a tendência nas diversas relações de trabalho foi o relato de várias e persistentes situações de assédio moral. De acordo com seus estudos, faz parte da precarização do trabalho a subalternização do trabalhador alvejando persistentemente sua autoestima e autoconfiança a ponto de implantar dúvidas sobre sua competência e capacidade. Este mecanismo impede que o trabalhador se posicione e denuncie, além de impedir a articulação e solidariedade entre os profissionais.

Fonte: AASP Brasil 


publicado 21/05/2018 10:44 notícia